Nasceu desprovido de tudo, sem pai, com uma mãe que o amava mas não suportava a dor da perda. A família era muita mas dele apenas tinham pena, desde do inicio sentia que era um bibelô que seguravam na palma das mãos com medo que o perdem-se e que naquela família outra desgraça se abatesse.
Os anos iam passando as coisas acontecendo num decorrer de vida dito normal. Era um aluno razoável como tantos outros, tinha caprichos e brincadeiras mas algo era diferente. Lidava com os adultos de forma natural percebendo-os, questionando-os, queria saber sempre mais. Naquela cabecinha de criança fluía uma psicologia de vida contagiante e invulgar, não era sobredotado claro mas algo naquela criança era diferente.
A diferença era visível por alguns tiques e algumas acções, era homossexual, afinal de contas nada tinha de diferente ou questionável mas apenas queriam tapar o sol com a peneira, deixar cair por terra boatos e outras historietas.
Já adulto com uma certa independência aquela criança que respirava vivacidade, tornara-se num ser com frustrações e sentimentos de impotência. Não percebia o mundo onde vivia, a comunidade onde estava inserido e pior ainda não percebia o porquê da discriminação, o ser considerado tabu algo que ele não escolheu, algo em que não se licenciou e para o qual não foi educado.
Porquê eu? Porque me apontam o dedo? Que fiz eu de errado? Estas eram as perguntas frequentes na cabeça daquele indivíduo padecido de uma doença social sem cura.
Usava a exuberância por vezes para demonstrar que existia e não era um bicho que queria comer cada homem que se apresenta-se á sua frente mas em simultâneo via que nenhuma luta, nenhuma marcha, cartaz ou panfleto alguma vez iria modificar a sensação de repúdio e indecência porque aquela comunidade onde haverá sido colocado sem nada reivindicar era conotada.
Procurava um grande amor, sempre em busca do homem ideal, que pensasse com a cabeça, que lutasse por um bem comum, que fosse racional, amigável, enfim todos aqueles sinónimos a que associamos o bem e a perfeição mas…ninguém é perfeito e dai resultavam sentimentos frustrados que o invadiam, que lhe apunhalavam o peito sem piedade e réstia de esperança.
Esta bendita esperança ia e voltava, a impotência surgia e era abalroada por ataques de segurança e prazer…mas lá no fundo o ódio e o rancor invadem os suspiros daquela criatura que ninguém conhece e é igual a todas as outras. Independentemente de tudo o que aconteceu, o que viveu e poderá vir a viver uma pergunta nunca lhe sairá da cabeça:
“Como será possível que nunca comunidade tão descriminada, não haja uma ponta de sentimento e fé?”